Para compreender a minha reflexão sobre o filme, é preciso que tenha assistido ao filme… ou não, se quiser arriscar.
A foto acima mostra a personagem principal do filme, Justine. Inclusive, esta foto está semelhante a uma cena de Anticristo (foto abaixo), mostrando já uma relação dos dois filmes – a sintonia entre mulher e natureza, o feminino e o universo.
O filme é resumidamente sobre o planeta Melancolia se aproximando para colisão à Terra, durante o casamento de Justine.
Para quem assistiu ao filme, notou claramente a confusão sentida por Justine durante a comemoração de seu casamento, até mesmo por influência da mãe que se encontrava no momento de comemoração. No início, ela já vinha sentindo tal sentimento ao começar a festa, mas de forma amenizada, associando-se ao distanciamento do planeta Melancolia que, ao se aproximar cada vez mais, sua confusão aumentava. Dois pontos são fortes para o que refleti:
ponto 1- desencadeamento da melancolia explosiva de Justine: uma cena importante em que ela se encontrava ainda com o vestido de noiva, foi quando Claire, sua irmã, ao notar sua estranheza, foi sincera com ela, dizendo-lhe que estava mentindo sobre sua satisfação com o casamento, provavelmente por influência das pessoas ali, pela condição de fazer valer os custos do casamento, e de seu status social ou pessoal. Esse momento é chave para que ela se revele, e aja de forma mais drástica. A partir daí, ela realmente começa a revelar sua insatisfação. Tal insatisfação é revelada até mesmo para o seu chefe do seu emprego de publicidade que estava na festa, que sempre tocava no assunto do slogan que ainda não tinha sido feito. Chegou um momento em que ela deixou claro que ele não merecia um slogan, pois para representá-lo, nem o nada seria suficiente. Essa idéia do marketing e publicidade, do parecer, da propaganda, serviu de analogia ao casamento e ao seu status de casada.
ponto 2- o simbolismo do casamento: Quando a mãe de Justine, durante tal comemoração, trancada no banheiro, fala para John, o cunhado de Justine e quem lidou com as despesas da festa, algo tipo “Não comemorei o primeiro cocô dela no pinico, nem a primeira “blablabla”, não é esse ritual besta que vai me convencer” (não lembro exatamente cada palavra). Basicamente, ela usou essa palavra chave “ritual” para tentar invalidar a idealização do casamento, pois, como ela deixou claro antes num discurso feito entre todos da festa, ela diz que não acredita em casamentos.
Após o fim da festa, quando todos foram embora, e apenas ficaram Justine, Claire, John e seu filho Tim, o filme começou a se concentrar mais na idéia do planeta Melancolia que estava se aproximando. As influências do planeta atingiram de forma clara os cavalos (e insetos também), mostrando suas agonias e posturas incomuns , e que, diga-se de passagem, é algo realístico, não mera ficção do filme. Justine é a representação humana dessa sensibilidade que os animais possuem. Ela possuia grande afeto com um dos cavalos, e essa reciprocidade é demonstrada também com a dificuldade de andar em que os dois começam a sentir em certos momentos.
Enfim. Quando todos eles entram na consciência de que o planeta realmente irá atingir a Terra, Justine é sincera e crua com Claire em seu momento de fragilidade: Justine está dando a verdade a Claire como retribuição do que ela retirou de seu casamento : a mentira de que está tudo bem. Justine marca uma cena falando de forma convicta frases importantes como “Eu apenas sinto”, “A vida é má” e “Estamos sós no universo”. Ela, como símbolo da natureza, do cosmos, do sensível, assim como os animais, revela tais frases.
Após a conversa drástica com Claire, Justine se dirige a Tim e é bem delicada com ele. Ela diz que para se salvarem, precisam estar na caverna mágica. Assim, constroem uma espécie de oca com galhos, remetendo a tribos primitivas e seus rituais. Assim acaba o filme: os 3 dentro de uma chamada “caverna mágica” são engolidos pela planeta Melancolia.
A “caverna mágica” é a mentira para que “sobrevivam”, o planeta é a revelação irrefutável: por mais que busquemos nossas proteções subjetivas, o universo é totalmente indiferente a isso.
Admirei o filme de acordo com minha interpretação, supondo tal absurdo com uma ficção, para a compreensão de nossa realidade. Esta é uma visão um pouco pessimista, mas inegável. Afinal, otimismos imateriais poderão ser nossas mentiras de proteção, nosso slogan, nosso falso casamento, nossa caverna mágica, não ? Sugiro a leitura do meu post abaixo que fala sobre a loucura. Queria deixar claro também que o filme não me passou uma visão genérica sobre casamento, mas sobre o risco intrínseco de tal ritual.
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Após o filme no cinema, eu, Gigito e Ramon estávamos no ponto de ônibus, e um rapaz que estava também assistindo ao filme apareceu de carro e perguntou se queríamos carona… mas não fomos, pois nosso rumo não era caminho em comum. Apesar de eu ter saído do cinema um tanto melancólico, além do que era um dia de domingo depressivo, pessoas legais às vezes parecem nos fazer esquecer de planetas gigantes que estão se aproximando… mas só quando são verdadeiramente legais, sem mentiras…

